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ENTREVISTA ALETÉA RUFINO: Unidos pelo bem comum

Publicado em 8 de março de 2018

Há dez anos à frente da área de Investimento Social da Fundação André e Lucia Maggi (FALM), Aletéa Rufino expõe opiniões sobre a atualidade do Investimento Social Privado e a sensação de transformar realidades por meio de trabalho estruturado.

Aletea-Rufino

Há quanto tempo você atua com Investimento Social? O que trabalhar nessa área representa para você?

Sou formada em Serviço Social, e meu início de carreira foi como Assistente Social na Prefeitura de Rondonópolis (MT). Foi lá que conheci a AMAGGI e a Fundação André e Lucia Maggi.

O tema do Investimento Social Privado (ISP), de certa forma, era muito novo para mim: somente em 2012 pude aprender mais sobre o assunto. Antes, acreditávamos na atuação da FALM e outras empresas como um elo, um braço de responsabilidade social, com as comunidades atuando em seu benefício. Havia várias frentes de trabalho filantrópico, mais assistenciais e pontuais. Entender o ISP estrategicamente foi algo que surgiu quando tivemos acesso ao Congresso do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), evento que foi um divisor de águas na maneira como encarávamos o trabalho junto das comunidades. Trouxemos essa dinâmica para dentro da empresa e implementamos essa cultura.

Era preciso melhorar nossa avaliação de impacto dos projetos e ações; alinhar nossa atuação com a estratégia do negócio nas localidades. Os primeiros projetos eram relacionados à produção e à entrega de bebida à base de soja para instituições que atendiam crianças e adolescentes, bem como à Seleção Publica de Projetos, que selecionava projetos de instituições sociais, que recebiam  repasses de recurso financeiro. Uma grande interação com a comunidade sem, no entanto, termos a medição do real impacto de nossas ações. Tínhamos dificuldades   de mensurar o quanto contribuíamos para a real transformação de realidades.

Nunca acreditei que ações pontuais causassem impacto real na coletividade. É necessário dar autonomia e acreditar no potencial de uma comunidade para que ela, por si só, possa se transformar. É preciso contribuir com o trabalho desses locais.

Durante esse tempo, você presenciou mudanças nessa área? Quais são aprendizados que o ISP traz às pessoas e suas comunidades?

A primeira transformação vivida foi o posicionamento, a representação do ISP da AMAGGI. A grande mudança foi perceber que não se faz nada sozinho; ao contribuir com uma comunidade, é necessário que ela também entenda o projeto para, juntos, pensarmos em soluções.

Também é preciso ter consciência de nossos pares, outras empresas e demais atuantes inseridos na região. Quais são suas percepções? Como podemos ser parceiros? Outro ator importante é o Poder Público. É uma mudança, inclusive, que vem sendo bem discutida. Antes, empresas que atuam com causas sociais queriam “tomar para si” assuntos que são de responsabilidade governamental; agora querem contribuir com ele. Queremos atuar em conjunto. Contribuir na geração de soluções nos assuntos em que possuímos know-how.

A grande mudança do ISP que percebo se apresenta em discussões sobre o quanto cada um pode contribuir dentro de seu próprio lugar, sua especialidade. É um movimento que está só começando; ainda há muito a ser desenvolvido nesse campo.

Nas regiões onde atuamos o tema do ISP é muito recente. Mapeamos empresas que fazem atuações sociais por aqui e percebemos que ainda não compreendem os conceitos de Investimento Social Privado. Há todo um processo de trazer essa discussão para esses locais, substituir a ajuda pontual pela estratégica. É um grande propósito a ser cumprido. Trata-se de uma oportunidade, na realidade.

Muitos dos projetos atuais da FALM nasceram e cresceram com sua atuação. Como é poder participar do amadurecimento da visão comunitária em uma instituição?

Para mim é muito gratificante ter tido a oportunidade de estruturar a área aos poucos. Em 2007, na época de minha entrada, identificamos coisas que precisavam ser mudadas para ficarmos mais estratégicos na atuação; hoje, ver esses objetivos se concretizando e fazendo sentido é muito satisfatório.

Acredito que o ambiente foi favorável; sempre houve liberdade para trazer temas que nos fizessem compreender o quanto poderíamos atuar não apenas nos negócios, mas também na área social nos locais em que estamos presentes. A FALM e a AMAGGI entenderam a oportunidade e a abraçaram, aprofundando-se no assunto.

Outra questão é que juntamos, com o passar do tempo, uma equipe muito competente na FALM. Temos colaboradores muito engajados, que abraçam os ideais; o propósito de atuação, afinal, precisa estar alinhado para que as coisas andem bem.

Outro ponto importantíssimo: as provocações das consultorias parceiras. Elas sempre nos fazem pensar e analisar os caminhos tomados. Às vezes vêm reflexões importantes, que nos fazem pensar e crescer.

Por fim, os atores locais são essenciais. O processo é de escuta e participação integrada, dando voz ativa a quem está na comunidade e incentivando sua colaboração. Essa relação faz com que a gente se engrandeça. Esse processo de crescimento profissional pelo qual passei é, em grande parte, graças a eles.

O que o Investimento Social ainda pode nos ensinar nos próximos anos?

O grande aprendizado é não fazermos nada sozinhos.

O recurso, devido às demandas da comunidade, é escasso; não há como atender todas as necessidades de uma vez. Entretanto, ao focar nossa estratégia naquilo com que podemos contribuir, há um retorno muito mais eficaz. Ao se trabalhar em parceria, compreendendo as capacidades dos outros em conjunto com as suas, é possível alcançar novos patamares. O grande desafio do ISP é esse: o quanto posso contribuir ao mesmo tempo em que estou aberto para receber ideias. Estar aberto a mudanças.

Há muitas instituições que adotaram os conceitos de Investimento Social mas que o aplicam olhando para dentro, apenas para seu propósito e reputação. É hora de pensar em rede! As organizações podem atuar juntas, alcançando um desenvolvimento local mais amplo. Unir é o grande desafio que vejo.

Qual a importância das lideranças comunitárias para o desenvolvimento de um local?

É primordial que as pessoas entendam seus papéis não apenas como cidadãos, mas como atores sociais nos locais em que vivem. Qual a importância de participar das questões comunitárias? Eu estou lá em benefício próprio, para meus desejos individuais, ou entendo que minha posição representa uma demanda coletiva?

Essa “virada de chave” para o entendimento de quais são os papéis de liderança são de extrema importância. Trabalhamos muito a formação do indivíduo nessas frentes. Fazemos com que pense no coletivo, pense as políticas públicas de maneira diferente. Mostramos que, com sua atuação, todos ganham.

Tentamos influir nesse processo. Fortalecer o atuante enquanto gestor de projetos para que melhore suas ferramentas de controle e monitoramento e engajamento de outros. Esse processo faz com que pensem em seus papéis de ator na comunidade. Incentivar o protagonismo traz um desenvolvimento local perene. Mesmo que essas pessoas mudem de organização, carregarão os valores capazes de transformar uma comunidade consigo.

Como vocês identificam esse potencial na população atendida? Quais as características trabalhadas?

Basicamente, vemos o quanto a pessoa agrega às discussões. Trazemos os inputs para as oficinas e, à medida que trabalhamos com a comunidade, vemos o quanto ela está atuante, o quanto de seu aprendizado é aplicado fora da atividade. Sua capacidade de entender o trabalho em conjunto, de potencializar essa rede para agregar valor a seu projeto sem envolver, necessariamente, recursos financeiros. Essa forma de atuação proativa é o que procuramos em um líder.

No fechamento do ciclo de um projeto, a sensação é de que a mudança é possível, desde que um bom planejamento tenha sido feito e que os papéis estejam claros.

As pessoas que lidam com Terceiro Setor têm essas questões do protagonismo e resiliência muito fortes. Temos casos de pessoas que estão ao nosso lado há bastante tempo, participando de vários projetos da FALM. Em determinado momento, compreendem que não é apenas o dinheiro que faz um projeto sair do papel; é necessário entender as conexões com outras questões existentes no município. Ao fim dessas formações, percebemos que o empoderamento faz com que entendam outras possibilidades e questões não antes contempladas. Isso é muito importante para a gente; é nosso objetivo principal com cada liderança que apoiamos. Trabalhamos a visão do todo com a pessoa. Onde estou? Em que posso contribuir e dar o melhor de mim?

Nesses dez anos de Fundação André e Lucia Maggi, um aspecto que mudou em mim é a percepção de que os aprendizados possuem seus devidos tempos. Não é possível ir sozinha, mas qual é o tempo para que o outro venha também? Quando você aprende a gerenciar isso, as coisas fluem muito melhor. O líder precisa estar devidamente inserido no desenvolvimento local, mas ao mesmo tempo é preciso checar se seus conceitos estão alinhados aos dos demais. Cada pessoa tem seu tempo; precisamos respeitar isso. A convivência é a essência dessa empatia.

“INCENTIVAR O PROTAGONISMO TRAZ UM DESENVOLVIMENTO LOCAL PERENE”

Você se dedica a outros projetos além da FALM. Qual a importância da dedicação pessoal ao desenvolvimento comunitário?O grande objetivo de atuar com a comunidade é mostrar que todos possuem potencial para chegar à solução dos problemas coletivos, e as relações têm que estar embasadas em valores comuns. Trabalhar com desenvolvimento local tem muito disso: cada um no seu tempo, desde que a relação seja justa e todos estejam alinhados. Ou seja, pensando no bem comum.

Atualmente, estou ajudando o condomínio em que moro a melhorar sua governança. Embora pareça simples, trata-se de algo bastante difícil: é surpreendente a capacidade das pessoas de olhar para o particular antes do coletivo. O exercício aqui é fazer com que trabalhem a visão do outro. Explico que mesmo que a pessoa não esteja ganhando nada diretamente com aquilo, o que beneficia a todos também é bom para ela. O bem é coletivo.

É interessante ver como minha contribuição nisso pode colaborar com os outros em outras esferas. Também tenho um projeto de atuação com organizações e iniciativas sociais para que se formalizem e não sabem como. Faço esse processo para ajudá-los com a parte documental. Atualmente dou apoio a duas organizações fora da minha atuação como gerente na FALM.

Trabalho voluntário, seja ele qual for, é importantíssimo. Contribuir com o que sabemos engrandece o bem coletivo. Boas atitudes se multiplicam. Fazer sua parte movimenta muito na direção do mundo ético e justo que queremos.

Por que é importante que as pessoas cuidem de suas comunidades? Como encorajar suas participações?

Acredito que a grande motivação é o resultado alcançado. O bem que fazemos, a gratidão sentida por termos contribuído.  Por exemplo: muitas organizações sociais têm sua autoestima fragilizada. Não conseguem, por vezes, um retorno significativo de suas ações. Quando sentamos em uma roda e mostramos a todas o quanto são importantes para o desenvolvimento local, sentimos essa gratidão. Estamos unidos com um propósito comum.

Essa união é construtiva. Há sempre possibilidades não percebidas anteriormente que podem vir à tona em uma roda de conversa, de troca.

Questões sociais sempre existirão, e sempre veremos organizações sociais indo e vindo. Mas, no final, as pessoas que têm esse viés coletivo, esse propósito de não olhar apenas para o indivíduo mas para o todo, sempre encontrarão uma causa para se engajar e movimentar uma realidade. Isso é o que nos motiva: ver que, dentre todas as pessoas com que convivemos, algumas já estão botando em prática o que aprenderam.  E ver que a gente também aprende com todas elas. Ver que a semente foi plantada, e que as encorajamos a não desistir.

Entrevista realizada por Renato Mobaid.
Fonte: Site da consultoria Comunitaria

Linha histórica da Fundação André e Lucia Maggi

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2011
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